domingo, 25 de setembro de 2016

Enfado prolífero









O porquê das intenções conflitantes é feito as bicadas do pequenino pica-pau no tronco em frente à janela martelando os instantes sem trégua, fazendo os ponteiros internos mexerem-se num pisca-alerta sobre sua passagem constante, fremente, precisa...notas sobre as horas medidas.

Nos olhos pregados na vidraça vejo o açoite do vento nos galhos, a marola da enxurrada pela rua e me conformo diante o fato da impossibilidade concreta; não poderei caminhar. 
Não hoje, domingo chuvoso, ventoso, cinzento.Convite ao recolhimento, às lembranças dos álbuns de fotografias, rever dias, traçar planos, ler aqui e acolá, pinçar palavras prolíferas, descansar, talvez, viajar( sempre boa opção), que por agora fica reservada em acesso sabido e próximo.

O exercício terá de esperar, ceder a vez para o estar, devanear simplesmente.





Chove
Fernando Pessoa

" Chove. Há silêncio porque a mesma chuva
não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
do que não sabe. O sentimento é cego.
Chove. Meu ser( quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...



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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Onde se perde meu olhar









Cheguei agorinha de lá de perto do meu marzão azul. Aquele que se estende em horizonte aberto a contornar ilhotas preguiçosas boiando placidamente em suas vagas.É nele que meu olhar se perde risonho. É nele que meus ares se renovam e meu espírito voeja ao sabor das suas brisas carinhosas.Sim, carinho soprado, refrescante e cantado em melodioso marulhar ritmado.

Num rasgo de fantasia, imagino-me navegando por seus ondulantes movimentos a embalar sonhos e realidades numa mesma sintonia.Mar suave, mare nostrum, mare mio, mexido por Éolo em suas brincantes estrepolias pelos quadrantes do mundo.São momentos de calar a voz do corpo e deixar que somente a da alma, fale.

No livro: "Mar sem fim", o navegador Amyr Klink declara enfático, de pé, no cais da enseada Antártica:
___ Vivo um daqueles raros momentos em que não se precisa de mais nada além do que os olhos contemplam."


São em momentos assim que se desenham as metáforas da vida. 









sábado, 3 de setembro de 2016

O Paraíso de cada um








Longe de mim, ao menos, tentar  definir o que seja mais próximo da idéia de paraíso, porém, cada um de nós a possui, com toda certeza. Idealizamos esse cenário com todas as nossas melhores tintas e macios pincéis.Adornamos, emolduramos e a guardamos em lugar de destaque, ao alcance dum estalar da mais rasa esperança. Conhecemo-la tão bem que sabemos descrever cada recanto, cada espaço, cada promessa e, depois de termos convocado sua presença, ainda que só na memória-afetiva, tornamos a reconduzi-la ao trono dos planos de vida.

Tenho comigo a impressão de que já variamos bastante de ideais a este respeito.Pra comprovar, façamos uma visitinha aos arquivos da memória risonha nas diferentes fases da vida e nos depararemos com as muitas versões já desejadas.Fomos dando retoques aqui e ali, pinceladas mais fortes, debruns mais suaves, adições novas, descartes e outras modificações, mas não desistimos de manter bem vívido esse local mágico.

Poderia descrever aqui o meu cenário paradisíaco em espaço e situação, mas, creio que o meu ideal não difira muito do da maioria de vocês. Aos 6.1, já me sinto consagradamente segura sobre isso, e me delicio ao ver em meus netinhos mais velhos o surgimento destes gostos ainda bem simples e ao mesmo tempo tão complexos, pra eles.Este lugar sonhado vai desde um colo na hora certa a um picolé saboroso num passeio alegre em família e tais, mas também pode estar num sentimento de alívio e segurança, como revelou minha netinha Valentina ontem, em meio a conversa ao redor da mesa de jantar.

Nós, os adultos falávamos sobre viagens e, em especial, ao Egito, quando virou-se ela pra mim e perguntou:___ Vovó, onde fica o Egito? Respondi, ao que em seguida, ela dispara:
___ Lá tem vacina? Eu digo que não, pros visitantes. E ela arremata:
 __ Vovó, você me leva pra la´?

Taí, mais um paraíso descoberto!





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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Fuga da Turbulência







" Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.
( Sophia de Melo Andresen)  






A simbologia mora
em cada volteio, cada nó;
Textura grosseira, penteia
as cascas, une os poros
e cria altura.
Fortaleza magna de beleza.
Monumento e abrigo.





Puxam nosso olhar os ramos mais altos apontando o fundo de tela em azul intenso. Um quadro naturalmente belo, naturalmente expressivo; existência sublime.No silêncio do dia, coisa rara, as cores falam, as tramas desenham, as flores arrebatam salpicando emoções  ao espírito imerso na turbulência das horas.
Não, à tôa, sabe-se das recomendações importantes para a saúde da mente e do espírito:
passeie entre a natureza. Perca-se no barulho das ondas. Encontre-se nas cores das flores.Descanse na sombra do arvoredo benfeitor.

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Passeios lindos também podemos fazer em muitos blogs.Destaco aqui o da querida Chica, fincandoraízes.blogspot.com.




domingo, 21 de agosto de 2016

Celebração BC comemorativa- Poesia Incontida




Festejar é bom demais, nos resgata a alegria por vezes adormecida e nos conecta com a alma encantadora do mundo. Festejar nos renova.




Pra essa festividade trago trechos,
 pétalas encantadas por poesias espalhadas, 
que somadas, fazem coro, emendam toadas.
Em roda espargem segredos, 
desvelam enredos, desenham, palavras.
Versos lidos, versos tidos,
versos cheios,
 incontidos.
( Eu) 



(foto- Chica)


E assim começa o dia:
nas mãos a chuva
se avoluma
enquanto um arco íris
incendeia o coração,
vira o corpo do avesso,
enche de cor as entranhas,
entorna por dentro um novo
caminho.
O vento sussurra
suas frágeis palavras
e é preciso guardá-las
entre os ossos
para que algum dia
virem pássaros.
( Roseana Murray)



(google) 







(pinterest)


Quarto Motivo da Rosa
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

(Cecília Meireles)




O Parabéns é pra vc, Norma, mas o presente é nosso pelos sete férteis anos de blogosfera!