quarta-feira, 19 de julho de 2017

" Pensar é coisa muito perigosa"



( foto/ Tica)


No traço da palavra, nas entrelinhas escritas, na essência latente aqui: 
A Leveza Profunda de Rubem Alves.


Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakovski suicidou-se. Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.

Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as ideias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem-unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.

Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que chamar psiquiatras e neurologista, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para lidar com o software há que fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.

Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias.

Opte por um soft modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contraindicados. Já o rock pode ser tomado à vontade. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.

Rubem Alves







quarta-feira, 12 de julho de 2017

Bom de ver, bom de (re)viver






Enquanto estouravam os fogos da procissão marítima pelo dia de São Pedro, nós, as primas, deixávamos fluir a alegria incontida do reencontro depois de muito tempo.Um dia enfeitado por risos soltos e afetos reavivados. Cremos, por isso, que os fogos também assim comemoravam o dia feliz.

E , aqui diante da telinha, me lembrei de um post antigo( mais um no tema) e fui lá atrás, em 2012, recuperá-lo. Uma conversa puxa a outra e as duas se completam.



Já está combinado há tempos imemoriais que um bom papo opera milagres na vida.Quando duas ou mais pessoas se envolvem numa conversa proveitosa, todo mundo sai mais alegre, mais confortado(a).Na fala ocorre o milagre da interação, da empatia e o benefício do encontro de interesses comuns fortalece as amizades, estreita os laços do convívio.

Assim na vida, como nas artes, o encontro aproxima as almas afins.Como estou resgatando o tempo que passei sem assistir filmes fui semana passada na locadora e um deles me chamou a atenção.Depois do maravilhoso " Hotel Marigot", me encantei com esta sensível obra do diretor Jean Becker, em "Minhas tardes com Margueritte/ La Tête en friche", com Gerárd Depardieu e Giséle Casadesus.

A história mostra o encontro de gerações na figura dos personagens centrais e toda riqueza das experiências vividas que brota todas as tardes no parque da cidadezinha do interior da França.A sensibilidade da velha senhora em perceber a alma machucada de seu amigo, faz com que a amizade entre eles vá se fortalecendo cada vez mais através das conversas trocadas.

A esta altura da vida, ele encontra nesta senhora as palavras e ações de apoio e incentivo que lhe foram negadas até então.Um cinquentão e uma senhora de noventa anos reescrevem a história de suas vidas a partir desta amizade.










terça-feira, 27 de junho de 2017

Marcas do dia-a-dia




(*)


Eu não era assim, desconfiada. Quando foi que essa faceta se infiltrou na brecha aberta entre um pensamento e outro, não sei mesmo, mas, me deparei com essa borda pendente na bainha de escolhas simples e rotineiras.Fui despertando pro enxerto ao ligar pro mercado pedindo alguns produtos a domicílio; insisto na expressão.Nada contra certos anglicismos adotados, mas às vezes gosto de ser do contra.

Pois, então, fiz a listinha, peguei o telefone e fui ditando pra atendente o que precisava na ocasião, ao que em muitos ítens era interrompida por ela com ao menos três opções de marcas referentes.Claro, que eu tinha de perguntar o preço de cada uma citada e além disso, a dosagem em gramas. Verdadeira investigação pelo melhor oferecimento e, o que era uma simples lista de poucos produtos de mercado se transformou numa apurada pesquisa de produtos variados.

Levei bom tempo nesse diálogo tenso, quase uma entrevista do censo. Até cheguei a esperar que ela me perguntasse se eu tinha geladeira em casa, quantas televisões, de quantas polegadas...


O que deveria ser uma economia de tempo, virou uma perda lamentável do mesmo.Enfim, ao chegarmos nas anotações finais, me perguntei se esta prestação de serviço não teria mais intenções interligadas, tipo: memorizarmos as marcas fortes do mercado, conhecermos novas marcas dos produtos que consumimos, sermos habilmente convencidos a mudarmos de marcas preferidas e, coisas tais.

Não é de hoje que somos induzidos, manipulados pelas diferentes mídias que  agigantam suas presas sobre nossas vidas, costumes, hábitos e interesses.É só dar um Google que se acha uma variedade enorme de filmes sobre o tema.Semana passada assisti ao " O Círculo", com Emma Watson e Tom Hanks, abordando a predadora conexão ilimitada interligando de, emails a buscas, pesquisas e compras na web, o que desenha um perfil de cada usuário(a) em suas preferências e possíveis novos consumos. Assunto sabido, porém longe de estar ultrapassado. Quanto mais se torna usual e corriqueiro mais perigoso se apresenta.

Só pra confirmar a longevidade do fato, lembro da eterna Elis cantando " Comunicação":

" Só tomava chá, quase que forçado vou tomar café..."



(*) imagem do Mercado Livre





sábado, 17 de junho de 2017

No ir e vir das marés





Tem sido recorrente a meus olhos encontrarem palavras comungadas em torno do singularmente fascinante a nos encantar simplesmente pela sua existência.Desconfio que esta seja uma máxima natural que sempre esteve presente e por malgrado humano passou e passa despercebida, disfarçada na ligeireza das horas e perdida em olhares superficiais.

Claro é, que as belezas da natureza saltam aos olhos, mais de uns, menos de outros, mas saltam alardeando em seu fulgor a magia em que consistem e existem.São elas vistas de pronto ou, às vezes com o vagar e o apaixonamento merecidos, ás vezes com uma mirada fugidia, isto vai pela intensidade de cada um(a) em seu sentir e ver o mundo em suas peculiaridades. 

Tais sintomas não acometem os blogueiros e blogueiras de meu estreito relacionamento    ( mesmo virtual). Reverberam por muitos ângulos da blogosfera, imagens lindas, destacadas, legendadas ou poeticamente enunciadas enaltecendo as maravilhas vistas e vividas. As emoções conjugadas, os saberes colhidos, os momentos preciosos, as somas trocadas em laços contínuos de caprichosos apreços.

É bem verdade que, os blogs têm estado num ritmo mais lento, vagarosamente alimentados por seus (suas)  capitães de longo-curso; curso ditado pelas exigências cotidianas, pelas obrigações falantes, pelos empenhos desvairados em conter os ponteiros do relógio que, como dizia Quintana:__"devora gerações inteiras".

Desculpas, sempre nos escoram e, são necessárias, mas , a meu ver, não podem tornar-se hábito permanente. Parcimônia é prima-irmã do bom -senso. Vez por outra, precisamos sim, nos refugiarmos do correr incessante das horas e, do alto da experiência que nos foi laureada pelos anos vividos e apreendidos no ir e vir das marés, darmo-nos o prazer de usar alguns momentos do dia  em horas prazerosas, alegres em sua futilidade existencial, leves e soltas no vagar de instantes descompromissados de regras ou imposições agrilhoadas; instantes aprazíveis e de riso infantilmente aberto.


"... até no capim vagabundo há desejo de sol[...]"
         Clarice Lispector









* Já há mais  páginas do Diário do Verdinho em passeios, lá na Silvana e na Jan( link na postagem daqui: Alinhavando Páginas). 



domingo, 11 de junho de 2017

Na Claridade do Dia







Parei, mudei o percurso bem no meio do hábito, desliguei o automático e desci pra areia.Passo sonoro marcando o terreno por breves instantes de movimento estancou o ímpeto inicial sossegando o desejo... Sentei-me de frente pro azul que me cobria, absorvia, tingia e acolhia; ali parada, apenas ali sentada, apenas ali, fluí, soltei amarras, me entreguei à brisa da manhã que findava trazendo horas corridas a me esperar, não já, agora não.

Levantei o polegar a impedir o ponteiro maior do relógio antigo e sorri pra mim olhando o agito da rua distante em seus barulhos altos, em seu vaivém incessante.Não já, não agora. Agora, parei, respirei fundo, agradeci muito esse dia, todas as horas, todos e tudo. 

Chorei. Pranto bom, renovador e transparente trouxe na celulosa claridade as felicidades vividas e as esperanças de outras infindas que virão.Dia claro de nuvens passeadoras que me carregam pela mão, renova meus anseios por outros plenos e alvissareiros.A escultura celeste sorri confirmando meus desejos.











Uma ótima semana pra vcs!